A "Corrida de Santo Onofre", em Arararaquara, no dia 31 dezembro, por Rodolfho Telarolli

postado em 24 de jan de 2010 06:26 por Usuário desconhecido   [ atualizado em 21 de dez de 2013 09:45 por José Antonio Francisco ]
Firmou-se como tradição em Araraquara durante o decênio de 1980, a realização de “CORRIDA DE SANTO ONOFRE”, promovida pelo Bar do Zinho, localizado na Rua Gonçalves Dias, esquina com Av. Cristovão Colombo, região central da cidade, nas proximidades do Parque Infantil “Dona Leonor Mendes de Barros”. 

A corrida realizada na noite de 31 de dezembro, integra um pequeno rol de eventos populares que merecem a aprovação, sem discordância, das diferentes camadas sociais araraquarenses. São poucos, de fato, os eventos que, em Araraquara, propiciam entretetimento sem exigir dispêndio de qualquer ordem. Nesse aspecto a “CORRIDA DE SANTO ONOFRE” pode apenas comparar-se a outra realização de cunho popular que tem Idade um pouco maior, a “Seresta a Caminho do Sol”, realizada na Praça Pedro de Toledo, sempre em uma noite próxima ao 22 de agosto, aniversário da cidade. 

É possível supor que a
“CORRIDA DE SANTO ONOFRE”, que em 31 de dezembro de 1994 teve a sua l5 realização, tenha se firmado no gosto popular pela própria forma absolutamente espontânea como se originou, sem que uma pessoa sequer premeditasse ou projetasse o evento, que, depois sim, foi adotado pelo DANIEL MARCOS RODRIGUES, o Zinho, que deu organização e continuidade ao evento. Vejamos como foi que nasceu a “CORRIDA DE SANTO ONOFRE”. 

Em uma tarde nos dias finais do ano de 1980, estavam no bar apenas Zinho, Dano de Lima, um menino de 12 anos que o ajudava, e um freqüentador habitual, Adail Pinto Mendes. Osvaldo Peixoto, O Bahia, morador na redondeza, passando em frente, dirigindo—se a sua casa, mereceu a admiração do Zinho, pela disposição e forma física ostentada. Apenas para encompridar uma “conversa para boi dormir”, A dali disse que seria capaz de bater Bahia numa corrida, uma prova de pedestrianismo.
Zinho desafiou zombeteiramente o amigo, dizendo que seria ele sequer incapaz de bater o menino Dano numa volta na quadra. Nascia a “CORRIDA DE SANTO ONOFRE”. Os dois correram uma volta na quadra, saindo pela Av. Cristovão Colombo, dobrando a Rua 9 de Julho, depois a São Seraldo e, finalmente, chegando ao ponto de partida, na Rua (lonçalves Dias, no bar. Logo nos primeiros 100 metros, o menino estava bem à frente quando dobraram a esquina. Indo à porta para ver os dois apontarem pela (3onçalves Dias, nos últimos 100 metros, surpreendentemente Adail vinha, com larga vantagem, à frente. 

Zinho estranhou e, questionado, o menino mostrou-lhe a nota de mil cruzeiros que o adversário lhe dera para passar à frente.
Mas nem com a desmoralização da zombaria
Adail se entregou, e, pouco depois, passando de novo o Bahia em frente ao bar, foi desafiado por Adail, que perdeu por larga margem os 100 metros que disputaram subindo a Rua Gonçalves Dias até a Av. São Geraldo. Pois ainda assim Adail persistiu, afirmando ser sua especialidade as longas distâncias. Por isso, dias depois, combinaram uma corrida valendo a aposta de uma caixa de cerveja. Outros fregueses foram aderindo à idéia e a disputa ficou marcada para acontecer no mesmo horário da “São Silvestre”, em São Paulo, servindo a partida lá, vista pela televisão, como horário da partida aqui, ou seja, as 11,10 minutos do dia 31 de dezembro de 1980. Frutuoso, Jaime Quatrucchi, João Andrade, Cusca, irmão de Zinho, foram alguns dos que correram, juntamente com Adail e Bahia. 

Zinho havia arrumado uma espingarda com a qual deu o tiro de partida. Vendo que alguns participantes haviam “passado do ponto”, mal ficando em pé, temendo pela segurança, Zinho pediu a colaboração do Corpo de Bombeiros e de uma guarnição da Policia Militar, no que foi prontamente atendido. Desde então também tornou-se tradição o Corpo de Bombeiros abrir a competição. Ao final dessa primeira corrida, os participantes foram brindados com uma farta mesa de cabrito e leitoa assados, que Zinho e sua Mulher haviam preparado para servir como surpresa.


Ano a ano a corrida passou a ser realizada, e cada vez com mais repercussão e um maior número de atletas, boa parte ostentando fantasias bizarras. A corrida já acumula muitas histórias pitorescas, como aquela dos dois conhecidos de todos da roda, que fantasiando-se de mulher e de cavalheiro de alta classe, com “smoking” e tudo, provocaram admiração e curiosidade, não sendo reconhecidos senão depois de encerrada a prova.
Mas a corrida só teve um nome depois, quando os próprios freqüentadores do bar decidiram que era preciso batizar o evento. E a sugestão, logo aceita, foi que o patrono deveria ser
SANTO ONOFRE, que muitos afirmam ser o protetor dos beberrões.


E, assim, não poderia ser outra a fonte dos recursos para comprar a imagem do santo que passaria a ornamentar o bar do
Zinho, entronizado num lugar de honra : a rifa de um garrafão de vinho. 


Porém, a escolha acabaria provocando inúmeros protestos de pessoas que julgaram um desrespeito à religião católica. Assim, certo dia,
Zinho recebeu de uma moradora nas vizinhanças, uma pequena imagem benzida em Aparecida do Norte, e algumas anotações que a mulher colhera zelosamente numa enciclopédia sobre o piedoso Santo ONOFRE: seria na realidade o protetor dos desvairados e dos desmemoriados, daí a confusão. Teria sido um monge que viveu no Egito como eremita, no século XVI, permanecendo 60 anos no deserto de Tebaída. A tradição popular também consagrou Santo ONOFRE como padroeiro do jogo e da fortuna. 


Zinho, é claro, desconhecia tantos detalhes e desculpou-se com a reclamante, em nome também dos seus amigos, não conseguindo, porém impedir que a “CORRIDA DE SANTO ONOFRE”, que promove anualmente, seja espontaneamente ligada à idéia dos abusos etílicos, estado em que participam muitos dos corredores. 

Numa primeira fase, que durou 5 ou 8 anos, o trajeto da “CORRIDA DE SANTO ONOFRE” era o seguinte: saindo do bar, pela Av. Cristóvão Colombo, subia a Rua 9 de Julho até a Av. Francisco Aranha do Amaral, a Av. 36, e descia a Rua  Gonçalves Dias até o ponto de partida, perfazendo um curso aproximado de 1.400 metros.

O trajeto que vigora atualmente é o seguinte:


Partindo do
Bar do Zinho, na rua Gonçalves Dias, esquina com a Cristovão Colombo, segue até a Av. 7 de Setembro indo até a rua Nove de Julho, dai segue até a Av. Francisco Aranha do Amaral, indo até a Av. Jorge Biller Teixeira, passando pela Al. Rogério Pinto Ferraz, chegando a rua Américo Brasiliense indo até a Av. Prof. Jorge Correa até chegar a Av. Gonçalves Dias, finalmente chegando até o Bar do Zinho, perfazendo um curso de 8.000 metros aproximadamente.


Como forma de controle, o regulamento determina a distribuição de senhas comprovantes da passagem dos corredores em dois pontos do trajeto, o que é feito por 4 juizes em cada ponto, que são a esquina da rua 9 de Julho com a avenida 7 de Setembro, no centro da cidade, e na esquina da avenida Jorge Biler Teixeira com a alameda Rogério Pinto Ferraz, no Jardim Primavera. 

Em meio ao grande número de araraquarenses que participam, fantasiados ou não, pelo simples gosto de participarem, concorrem atletas de bom nível, que vêm especialmente para a corrida. Nos últimos anos as inscrições tem contado com participantes de cidades próximas e distantes, contando, entre outras, Rio de Janeiro, Brasilia, São Paulo, Santos, Londrina, Votuporanga, Descalvado, Taquaritinga, Matão, São José do Rio Preto, São Carlos, Ibaté, Bebedouro. 


Desde antes do Natal, o trecho da rua Gonçalves Dias onde está o bar do
Zinho se engalana com arcos, faixas e festões em muitas cores. A Corrida manteve a tradição do horário, com a chegada nos minutos próximos à virada do ano. Ao som e à luz dos fogos de artifício durante todo o trajeto, a população apinha-se nas calçadas, formando-se uma aglomeração que fervilha em entusiasmo contagiante nas proximidades do ponto de chegada. 


Na última disputa em 31 de dezembro de 1994, as câmaras da EPTV São Carlos, aliada da TV Globo, registraram a partida de 417 concorrentes, que se inscreveram nas categorias Geral, Livre, Semi-Veterano, Veterano, Feminino e Mirim, projetando-se para 1995 a classificação Mirim em duas categorias, devido ao grande número de crianças que vem participando. Os vencedores recebem troféus doados por patrocinadores.
Com o crescimento do evento,
Zinho vem se preocupando com a memória da “CORRIDA DE SANTO ONOFRE”, tendo conservado, mesmo que sem qualquer sistematização, tudo o que a ela refere, como vídeos, recortes de jornais, material de inscrição, classificação etc. 


O BAR DO ZINHO Instalações modestas, pouco mais de 20 metros quadrados, é ponto onde um grupo de araraquarenses se reúnem após o trabalho, a partir do fim das tardes, ficando com as portas abertas até 24 horas aproximadamente. Localizado em região urbana onde a ocupação mescla estabelecimentos comerciais e residências, o funcionamento do Bar do Zinho jamais foi alvo de qualquer tipo de reclamação, havendo uma convivência cordial com a vizinhança. Profissionais liberais, comerciantes e comerciários públicos e burocratas de empresas privadas, além de profissionais e trabalhadores de variados ramos de atividades, os freqüentadores do bar formam uma alegre e ordeira famiia. Vê-se uma rodinha formada de um lado em torno do copo de cerveja, do refrigerante, ou simplesmente para um “dedo de prosa”, outro grupo ali, em torno da mesa em que os parceiros se esforçam para impedir que captem os sinais que trocam e que dão o tempero a trucada enfezada.
Nos dias seguintes às rodadas de jogos a conversa predominante que anima todas as rodas gira em torno da nova classificação no campeonato e das peripécias das partidas. Também os grupos se animam bastante nos dias em que aguardam a transmissão de partidas pela televisão. 


No atendimento aos amigos,
Zinho é ajudado pela esposa, Lindaura Terezinha Rodrigues, nascida em Dourados - MT, em 1939, que cuida com especial desvelo dos trabalhos da cozinha, na preparação dos quitutes, com o mesmo carinho com que cuida do preparo do alimento em casa. 


DANIEL MARCOS RODRIGUES, o Zinho, nascido em Araraquara em 1939, tornou-se conhecido na cidade pela participação nos campeonatos da Liga Amadora de Futebol, a partir da segunda metade do decênio de 1950, até o final dos anos 60, quando disputou, quase sem interrupção, pelo Estrela Futebol Clube, como centroavante rompedor graças ao físico privilegiado, mas também de fino toque de bola. Jogava na mesma equipe o irmão Cusca, com quem sempre manteve grande afinidade e semelhança física.

Em Três ocasiões chegou a tentar o profissionalismo: no ano de 1961, quando permaneceu certo tempo em experiência na Associação Portuguesa de Desportos, da Capital paulista, e, posteriormente, no Mato Grosso e em São José do Rio Preto. 

Em Araraquara foi bicampeão amador nos anos de 1960 e 1968, pelo Estrela Futebol Clube. 


O AUTOR DO TEXTO : Rodolpho Telarolli, 61 anos, araraquarense, é professor aposentado da Universidade Estadual Paulista, UNESP, onde lecionou História. Ë mestre e doutor em História, títulos que obteve com a conclusão de cursos de pós-graduação na Universidade São Paulo, USP. Como historiador dedica-se após -a aposentadoria, à pesquisas sobre histórias de famiias de imigrantes, e com problemas do cotidiano e temas da história da cidade. Entre outros, é autor do livro “Poder Local Na República Velha”, Editora Nacional, São Paulo, 1977, Coleção Brasiliana, volume 364.

Araraquara, 22 de janeiro de 1995. 

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